De Dom Joo a Rei Momo

 

          O conceito de cultura popular contém, ao mesmo tempo, uma solução e um problema. Ao distinguir as produções artísticas da elite e das massas, permite atribuir características diferenciadas a cada uma, e, assim, tudo parece fazer sentido. Por ser rude, a plebe teria, nessa visão, baixo nível intelectual e seria facilmente sujeita à manipulação. Elementar, diriam aqueles que, pensando encerrar a questão, entendem a liberação de verbas do município para escolas de samba que vão saudar Dom João VI no carnaval de 2008 como um ato maquiavélico do prefeito Cesar Maia.
          O problema é que não existe uma cultura popular e outra de elite totalmente diferenciadas e sem pontos em comum. Para estudiosos como Monique Augras, por exemplo, autora de "O Brasil do samba-enredo", na essência, há uma cultura só, com manifestações diversas em grupos diferentes. Como um rio que se divide em dois, seguindo cada um o seu caminho, mas com água da mesma origem. Os enredos que dão vivas ao rei 200 anos depois de sua chegada não são, portanto, nada mais do que a face carnavalesca de um momento de revisão histórica, do qual intelectuais e a mídia também participam.
          Jornalista com pós-graduação na USP e passagens por universidades nos EUA e na Inglaterra, Laurentino Gomes destaca, no recém-lançado "1808", que o monarca - retratado como ridículo no filme "Carlota Joaquina, princesa do Brasil" - foi o único que, nas palavras do próprio imperador francês, conseguiu enganar Napoleão. E demonstrou, entre outras virtudes, habilidade política ao parar na Bahia a caminho do Rio. Ao ficar um mês em Salvador, o príncipe regente deu aos baianos, nostálgicos da perda da condição de capital, em 1763, a sensação de que eram importantes na colônia. Afinal, Portugal, em seu momento de fragilidade, não podia nem pensar na hipótese de divisões internas no Brasil. Nem por isso o autor esconde que Dom João tinha medo até de trovoadas e caranguejos e nem deixa de citar narrativas de detalhes sórdidos de sua sexualidade.
          Da mesma forma, a série "1808, a Corte no Brasil", das repórteres Sandra Moreyra e Monica Sanches, da Globonews, mostra como a vinda da Família Real não foi ato da vontade do soberano, e sim força das circunstâncias. Mas destaca como o país se beneficiou.
          Ora, se o momento é de recuperar a importância histórica de Dom João VI, surpreendente seria se as escolas de samba fizessem enredos zangados sobre ele justamente no bicentenário de sua chegada. O carnaval é amigo do rei há mais de cinco décadas e não precisa de patrocínio da prefeitura para beijar sua mão.
          Apenas na Portela, fundamental na história do carnaval, ele foi protagonista duas vezes. Em 1957, a azul-e-branco venceu com "Legados de Dom João VI", dos compositores Candeia, Waldir 59 e Picolino, que narrava em linguagem peculiar o desembarque no Rio: "...Incomensurável séqüito, vulto de notável mérito/ O eminente príncipe regente..." O conteúdo pode ser conservador e acrítico, mas, no contexto da festa, jamais alguém se incomodou com isso. Pelo contrário, o samba-enredo virou clássico, e Martinho da Vila o incluiu numa antologia do gênero, nos anos 80.
          Em 1977, tal e qual o boêmio de Nelson Gonçalves, ele voltou novamente. O enredo da Portela, "Festa da Aclamação", lembrava a comemoração de sua subida ao trono depois da morte de Dona Maria I. Na descrição de Laurentino Gomes, o cenário da celebração tinha muito em comum com um desfile de escola de samba: "O acanhado Largo do Paço se transformou repentinamente numa praça imperial com alegorias às maiores civilizações que a Humanidade havia testemunhado nos dois milênios anteriores. Numa referência ao Império Romano, Grandjean de Montigny construiu na beira do cais a reprodução de um templo de Minerva, a deusa da guerra. Um pouco adiante, junto ao chafariz, Debret desenhou uma cópia do Arco do Triunfo que Napoleão Bonaparte havia mandado erguer em Paris para a chegada de sua segunda mulher, a imperatriz Maria Luísa, da Áustria. No centro da praça, havia um obelisco egípcio desenhado por Auguste Taunay." O rei gordo e glutão foi coroado em fevereiro, mais precisamente no dia 6, do ano de 1818. Tudo a ver. Carnaval é uma festa de excesso não só estético e sexual, mas também gastronômico. Ou alguém acha que feijoada faz tanto sucesso em roda de samba à toa?
          Portanto, soberano com mais cara de folião que Dom João VI, talvez só o próprio Rei Momo. Se a Mocidade e a São Clemente, no Grupo Especial, receberam dinheiro para exaltá-lo, a Imperatriz Leopoldinense também vai narrar na Sapucaí a sua saga, mesmo sem patrocínio da prefeitura. Não por altruísmo, mas porque a carnavalesca Rosa Magalhães, autora do enredo "João e Marias", não é boba e sabe que o assunto dá samba, por causa do peso histórico e das possibilidades estéticas.
          Com a verba oficial, a cidade ganha a chance de rever, em grande estilo, a imagem de um protagonista da História do Brasil. E o poder público exerce o direito de ser um dos agentes da construção da memória coletiva. É claro que ajudar escola de samba dá retorno político em ano eleitoral. Cesar Maia vai lucrar se conseguir se vincular à imagem de Dom João VI como o primeiro grande administrador da cidade. Mas o grupo do prefeito não é herdeiro político do personagem como o brizolismo de Getúlio Vargas, que já foi enredo da Mangueira, do Salgueiro e da Portela. O patrocínio não impõe à festa nada incompatível com a sua natureza.
          O Ministério Público e a Justiça Eleitoral até podem, segundo seus critérios, enxergar alguma irregularidade nisso. Já os cronistas da festa não precisam se preocupar. Não se trata de um corpo estranho à tradição.

Marcelo de Mello
(Publicado originalmente no site do jornal O Globo em 16/01/2008 s 17:48)

 

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