Quando o surdo traz a dor

 

Primeira batida do surdo de marcação

            É...só agora sentimos verdadeiramente sua importância...Tu viste surgir tudo. Grande idéia que vocês tiveram em criar o conjunto carnavalesco Oswaldo Cruz. E aquele concurso na casa do Zé Espinguela? Como foi? Esquece, já não podes mas nos responder. Lamentamos agora não poder perguntá-lo sobre tanta coisa....Mas porque não perguntamos antes?
            E aquela briga entre Rufino e Heitor dos Prazeres? Insistimos em perguntar, mas agora já é tarde. E quando tudo se chamava Vai como Pode? Você viu...Viu também o primeiro desfile, em 1932. Conte-nos, seu Cláudio, por favor....

Segunda batida do surdo

            E não é que aquela idéia deu certo. Oh!  praça XI...Época romântica da nossa festa...Como foi o primeiro título da Portela? O que o senhor sentiu? Sua voz embalava o bailar de Claudionor, inspirava a batida da bateria de mestre Betinho, animava o coro das pastoras. Como era ser mestre de canto naquele tempo? ha, agora é mole...Quero ver esse pessoal metido a besta se criar naquele tempo...Sem som, sem microfone....era tudo no gogó...Você, Alcides  e João da gente. ME DIZ!!!!!! PORQUE NOS DEIXASTE AGORA??????

Terceira batida do surdo

            Ah, já sei....Não queria ficar de fora da festa de centenário de seu compadre Paulo....Vai...Tudo bem, faltava só você mesmo...A saudade já era grande, não é verdade? Desde 1949 quando você o encontrou bebendo naquele boteco da estrada do Sapê vocês não se viam...Quando abraçá-lo, não esquece de falar de nós...Agradece a ele por tudo. Peça desculpa por tudo que fizemos a ele ainda e vida e depois de morto. É...Você deve estar mais feliz agora ao lado de seu amigo e compadre Paulo Benjamim de Oliveira.

Quarta batida do surdo

            A festa deve estar boa mesmo...Caetano, Rufino, Chico Santana, Dona Vicentina, Manacéia, Alcides, João da Gente....Chega. É tanta gente para você rever. Conte como está a Portela. A sua Portela. A nossa Portela. A Portela que você e eles construíram. Conte de nossa incompetência, peça desculpa, peça ajuda.

Quinta batida do surdo

            E agora sem você pra nos dar força em nossos desfiles? Tá...Já sabemos...Desculpa por praticamente esquecê-lo na parte de trás de um bonde...Você era importante...Agora a gente sabe...Sua presença era a lembrança de nossa própria história...Contemplávamos sua alegria e uma magia surgia nos dando forças. Seu Cláudio, o senhor era nosso exemplo....PORQUE NÃO PERCEBEMOS ANTES????

Sexta batida do surdo

            E agora que o senhor não vai mas em nossa quadra? Chegavas quietinho, amparado por seu filho, sentava... o senhor estava sempre sorrindo, não é verdade? Disso nos lembramos...O que o senhor pensava? Poxa, quantas gerações o senhor presenciou na nossa querida Portela....É, seu Cláudio...Vai ser difícil....

Outra batida do surdo

            E agora? E agora sem você? Permita-nos chamarmos de você. Se antes tua presença era a prova da nossa história, sua ausência demonstra agora toda nossa ignorância e burrice. Burrice sim, pois deveríamos ter agradecido tudo o que o senhor fez...Agora, se muito, terá um pequeno reconhecimento, uma homenagem póstuma...Mas o que importa? Você merecia, simplesmente, se sentir feliz no final da vida. Merecia um pouco de alegria...Talvez receber um prêmio... Não pelo prêmio em si, mas pelo sorriso que daria ao recebê-lo. .Queríamos que o senhor sentisse orgulho de nós, assim como nos orgulhamos de tudo que o senhor fez em vida. Mas não podemos fazer mais nada...Desculpa, seu Cláudio.
            O som de um apito rasga o silêncio. A bateria toca acelerada todos os seus instrumentos. O falatório retorna. Novamente a ignorância e a burrice retomam seu espaço. O minuto acabou.
            Descanse em paz, seu Cláudio.

Rio 01/VII/2000

 

Fábio Pavão
(Fábio Pavão é pesquisador de Carnaval e um dos Webmasters da Home Page da G.R.E.S. Portela)

 

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